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    Por que algumas crianças sentem tudo de forma mais intensa?

    Intensidade emocional, sensorial e intelectual não são excessos. São formas diferentes de vivenciar o mundo.

    Projeto Ingenium
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    Você já ouviu alguém dizer que seu filho "exagera"?

    Que faz tempestade em copo d'água, que é sensível demais, que reage de um jeito desproporcional para uma criança da idade dele?

    Essa percepção é comum. E, na maioria das vezes, é bem-intencionada. Mas ela parte de um pressuposto que vale questionar: o de que existe uma única forma "certa" de sentir e reagir ao mundo.

    Há crianças que vivem a experiência de outra maneira. Não é mais errada. É mais intensa.

    O que está por trás dessa intensidade

    Na área das Altas Habilidades/Superdotação, existe um conceito que ajuda a nomear esse fenômeno: a sobre-excitabilidade.

    Não se trata de um diagnóstico, nem de um problema. É uma forma de descrever como algumas pessoas, especialmente aquelas com funcionamento cognitivo mais elevado, processam os estímulos do mundo de maneira mais profunda e duradoura do que a média.

    A criança não apenas percebe mais. Ela sente mais. E por mais tempo.

    Isso tem consequências concretas no dia a dia.

    Como essa intensidade aparece

    A literatura descreve cinco áreas em que essa sobre-excitabilidade pode se manifestar. Elas raramente aparecem isoladas.

    A intensidade emocional é talvez a mais visível: reações afetivas fortes, empatia elevada, vínculos profundos, frustrações que parecem desmedidas para quem observa de fora. A criança não está performando. Ela genuinamente sente com essa magnitude.

    A intensidade intelectual se traduz em curiosidade que não tem fundo. São as perguntas que não param, a necessidade de entender o porquê do porquê, o desconforto com respostas vagas ou superficiais.

    A intensidade sensorial aparece como hipersensibilidade a sons, texturas, luz, cheiros. A etiqueta da roupa que parece insuportável. O barulho do recreio que desorganiza. Não é frescura. É o sistema nervoso funcionando num limiar diferente.

    A intensidade imaginativa se manifesta na riqueza do pensamento criativo, nas associações inusitadas, na dificuldade de separar o que é real do que é inventado, especialmente em crianças pequenas.

    E a intensidade psicomotora aparece como energia que parece não ter fim, necessidade constante de movimento, dificuldade em permanecer parado sem que isso signifique desatenção.

    O problema começa quando a intensidade é mal lida

    Essas características, quando não compreendidas, costumam receber outros nomes.

    A agitação vira "déficit de atenção". A emoção intensa vira "descontrole". As perguntas constantes viram "oposição" ou "falta de respeito". A hipersensibilidade sensorial vira "birra".

    O resultado é uma criança que aprende, cedo, que o jeito como ela funciona é um problema. Que ela é demais. Que precisa se conter.

    Esse é o custo real de uma interpretação equivocada. Ele não se mede só em diagnósticos errados. Mede-se em autoestima, em relação com a aprendizagem, em como essa criança vai construir a percepção de si mesma ao longo dos anos. Se quiser entender melhor onde esses erros de leitura acontecem com mais frequência, vale a pena ler os erros mais comuns na interpretação desses comportamentos.

    Na escola, isso fica ainda mais evidente

    A escola é o ambiente onde essa desconexão aparece com mais força, porque é onde a criança precisa se encaixar numa estrutura pensada para um funcionamento médio.

    Crianças com esse perfil podem se desinteressar rapidamente de conteúdos que não oferecem desafio. Podem apresentar inquietação ou baixo rendimento. Não é por incapacidade, mas por falta de adequação entre o que precisam e o que está sendo oferecido. Podem ser vistas como difíceis, quando na verdade estão subaproveitadas.

    Intensidade não é excesso. É funcionamento.

    Quando essa criança encontra adultos que compreendem seu funcionamento, em vez de tentar corrigi-lo, algo muda.

    Não desaparecem os desafios. A autorregulação ainda precisa ser construída. A relação com a frustração ainda precisa ser trabalhada. A convivência com um mundo que funciona num ritmo diferente ainda vai exigir esforço.

    Mas a diferença é que esse trabalho acontece a partir de um lugar de reconhecimento, e não de vergonha.

    É por isso que o desenvolvimento emocional dessas crianças também merece atenção específica: ele não segue uma trajetória previsível, e compreender isso faz toda a diferença no acompanhamento.

    Quer ir mais fundo nesse tema?

    O artigo científico que embasa grande parte do que foi discutido aqui, incluindo dados de pesquisa com famílias e educadores brasileiros, o questionário de indicadores de sobre-excitabilidade e uma discussão sobre como a escola pode (ou não) responder a esse funcionamento, está disponível para download:

    📄 Baixar artigo completo A sobre-excitabilidade e a educação nas Altas Habilidades/Superdotação (Neumann, 2022)

    Referências

    Neumann, P. (2022). A sobre-excitabilidade e a educação nas Altas Habilidades/Superdotação. Revista Cocar.

    Oliveira, J. C.; Barbosa, A. J. G.; Alencar, E. M. L. S. Contribuições da Teoria da Desintegração Positiva para a área da superdotação. Psicologia: Teoria e Pesquisa.

    Projeto Ingenium

    Acompanhamento especializado de crianças e adolescentes com Altas Habilidades/Superdotação, desenvolvimento intelectual, emocional e construção de identidade.

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